Entre Viagens

Grajagan

on
março de 2020
ENTRE VIAGENS
 
          Começa um novo dia na aldeia piscatória de Grajagan, eu imagino que seja o mesmo que o dia de ontem, que todos os outros que passaram. Começa o novo dia com os botes que regressam de uma noite de pesca e mistério, uma noite nas mãos do imenso oceano sempre igual. A maré está demasiado baixa para navegar no estuário. Grajagan espera que a maré comece a encher. Alguns homens esperam ao largo, sentados nos botes, outros esperam na praia, sentados na areia.

Ao redor, estende-se uma densa floresta tropical, habitat de tigres, cobras, escorpiões, mosquitos portadores de malária. Na ponta do cabo quebra a onda de surf mais perfeita e consistente do mundo, a onda de G-Land. Calhou de ser ali: a orientação do litoral neste canto da ilha de Java, a potência e a constância das ondulações do Oceano Índico, a direcção dos ventos predominantes e sobretudo o desenho da bancada de coral permitiram esse milagre da Natureza. Estas ondas quebraram aqui durante milhões de anos sem ninguém reparar nelas. Nenhum ser humano sequer se aproximou, muito menos tentou deslizar por aquelas paredes líquidas e translúcidas. Eu chego hoje, permaneço uma semana, depois regresso à vida normal. Elas, as ondas continuarão a quebrar ali por outros milhões de anos, indiferentes à minha breve e extasiada passagem. Eu sou, como as pessoas na praia de Grajagan, um ponto suspenso no tempo que passa.

Uma engrenagem cósmica que a modernidade ainda não conseguiu adulterar. Impressiona-me esta ausência de infra-estruturas portuárias, esta dependência das fases da lua, do ritmo das marés, do estado do mar, este sentimento de tempo parado, de insignificância colectiva nas madrugadas serenas da praia de Grajagan. Tal como os homens nos botes e os homens na areia, também eu espero impotente que as condições naturais permitam navegar a barra, entrar no oceano, atravessar o golfo e alcançar o cabo Plengkung, a dez milhas náuticas de distância.

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GONÇALO CADILHE
Figueira da Foz, PT

Gonçalo Cadilhe nasceu na Figueira da Foz em 1968, cidade onde cresceu e que mantém como residência. Licenciou-se em Gestão de Empresas na Universidade Católica do Porto, em Setembro de 1992, fazendo parte da primeira "fornada" de licenciados deste curso. Durante os anos da Universidade frequentou também a Escola de Jazz do Porto...

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